Trabalho final "As pesquisas e as investigações baseadas nas Artes: experiência e interpretação"

 "A arte não existe para produzir o visível, e sim para tornar visível o que está além."

Paul Klee






Carta à Renata Matsuo

Prezada Renata – Universidade São Judas,

01/07/2007

Não quero parecer autocentrada, muito menos insana com esta carta1. Normalmente as pessoas costumam escrever cartas para o seu “eu” do futuro, com vistas à saber se o que almejava se tornou realidade... O meu propósito é um pouco diferente, na verdade meu objetivo é escrever uma carta para o meu “eu” do passado... Para você Renatinha! Meu intuito é te acalmar, porque eu sei que está desanimada e aflita.

Neste exato instante você deve estar aí, sentadinha no escritório improvisado, na dispensa do apartamento em que moramos. Deve ser 1:00 da manhã, e nossa chinchila Lana deve estar te fazendo companhia. Imagino que você deva estar em prantos, e se sentindo solitária. Isso porque sua orientadora te deu um prazo curtíssimo para entregar o capítulo sobre promoção da saúde, e você está tendo dificuldades de escrita... O medo de não conseguir escrever vem atrelado ao medo de não corresponder às expectativas dela : - Prazos! Temos que cumprir os prazos! Quero você defendendo antes de dezembro!

Calma! Respira, enxuga suas lágrimas, e leia com atenção essas linhas. Vou te tranquilizar, e você vai entender o quanto tudo isso não vai fazer nenhum sentido dentro de alguns anos...

Então vamos lá!

Minha cara Renata, você tem total razão em ficar frustrada com sua escrita. Todas essas noites sem dormir, lutando para escrever alguns parágrafos, e que serão apagados depois, realmente não é fácil. Mas isso porque você ainda não sabe como você pensa!

COMO VOCÊ PENSA?

Exatamente isso! Como você pensa?

Hoje eu sei como você pensa. E sei que aí na frente do computador, você não está coerente com seu modo de pensar. Está tentando se enquadrar em um “fazer científico”, com uma escrita determinada, que te dificulta colocar no papel seus pensamentos... Garanto que daqui alguns anos você sentará na frente do seu computador e escreverá as páginas do seu projeto de doutorado com facilidade. E não será porque terá experiência nessa escrita “científica”! Será porque escreverá como pensa, e escreverá sobre o que te importa! Então não se aflija, vou tentar te fazer entender o motivo de tanta dificuldade na escrita e no raciocínio dito “científico”...

É importante Renata, que antes de mais nada, você compreenda que método não é aquela parte do seu projeto de pesquisa em que você descreve os seus procedimentos.  Método é forma de pensamento, como se pensa a construção da investigação! Aliás, é preciso saber como se pensa, para então poder escolher os procedimentos a adotar na pesquisa...  Você inclusive havia feito isso em sua dissertação, se lembra? Começou um estudo teórico para a escrita de um capítulo chamado “metodologia”, mas foi obrigada a apagar2. Pois é, as pessoas acreditam não ser importante estudar sobre método, pois julgam que isso já é dado, e que há uma maneira certa de se pensar sobre as questões investigativas, especialmente na área da Educação Física. E como há uma maneira “certa” de se PENSAR, somos (E FOMOS) levadas a acreditar, desde sempre, que há um jeito “certo” de se PROCEDER para construir pesquisa. Especialmente a pesquisa dita “científica”.

É Renata, temos que admitir, você aprendeu com muita excelência esse jeito “certo” de fazer pesquisa. Seus anos de graduação e pós graduação na São Judas te fizeram uma legítima herdeira do modelo de racionalidade historicamente imposto. Você aprendeu muito bem como fazer pesquisa ancorada nas lógicas dedutiva, indutiva e hipotética-dedutiva, sob a égide do paradigma cartesiano3.

É claro que isso não foi de todo inútil! Não posso deixar de pontuar que este percurso lhe rendeu grande reconhecimento. Em 2015 você conseguirá um emprego na Faculdade Drummond por conta dessa organização que tem para construir pesquisas “científicas”. Aliás, você também se tornará orientadora oficial do curso de pós graduação em Acupuntura da Estácio. Se tornará uma excelente executora (e orientadora) de processos/técnicas, para construir pesquisas nessa lógica tradicional. 

Útil foi, mas isso te trará extrema dificuldade para descobrir o modo como VOCÊ PENSA. Vai demorar pelo menos alguns anos para desconstruir e redescobrir-se pesquisadora.

Você é intuitiva!

Isso você já sabe... canceriana que teve que morar sozinha com 17 anos, aprendeu a seguir sua intuição para viver... Mas eu estou afirmando que você poderá usar essa intuição, que usa para viver, na construção e produção de conhecimento na academia.

Te conhecendo tão bem como conheço, aposto que está gargalhando neste momento, afirmando: intuição não é método científico! 

Tradicionalmente não! Mas, no futuro, você deixará de fazer pesquisas tradicionais. Você será uma investigadora radicalmente qualitativa4! E para tanto deverá assumir sua intuição como uma forma de pensar e de construir suas investigações.  

Vou te dar alguns exemplos sobre sua intuição...

Como cozinha?

Como dirige?

Como arruma os armários?

No fluxo da vida minha filha! No caos!

E não funciona?

Agora como você coreografa? E como escreve sua dissertação?

Aposto que levou as mãos à cabeça e teve vontade de chorar... Não gosta de coreografar e nem de escrever!!!

Exatamente minha querida! Porque você não está sendo coerente consigo mesma! Está usando uma racionalidade que não é a sua!

Vou te contar uma coisa do seu futuro: No espetáculo de 2019 do estúdio Phalibis (é você trabalhará lá até 2019) você coreografará pela primeira vez seguindo sua intuição... e será a primeira vez que se sentirá orgulhosa do processo (algo que sempre te encanta) e do resultado (isso mesmo, até o produto te encantará). Intuição! Coerência! Você será bem feliz querida!

Henri Begson5 é o filósofo que você estudará para compreender esse conceito de intuição. O método intuitivo bergsoniano é essencialmente interior, no sentido de se voltar primeiramente para si, partindo da sua própria vida e da suas experiências vividas e gravadas na memória (duração). A intuição faz parte da consciência, mas nos afeta antes da racionalização. Como artista, e das artes do corpo, você às vezes toma decisões que não consegue racionalizar... Especialmente na sua prática docente... INTUIÇÃO!

 Talvez ainda não acredite. Talvez nem acha que deva ser, porque intuição e ciência não são coisas que combinem. Mas você descobrirá que talvez nem faça mais CIÊNCIA (Talvez nunca tenha feito)! E tudo bem! Vai entrar no doutorado sem precisar fazer “essa ciência” tradicional, nos ditames impostos.  

Além disso, devo te lembrar que sua intuição te assombrou tanto na coleta de dados do mestrado... me lembro bem! Você encontrou tantas “coisas” das quais gostaria de ter falado! Mas estava “focada” no objeto de estudo... e estava coberta de razão em ficar desconfortável com isso. No futuro você vai aprender sobre algo que vai mudar sua vida: INTERSUBJETIVIDADE! Entenderá que mesmo nas pesquisas qualitativas que usam entrevistas (como a sua), pode ser que você esteja fazendo uso do EU-ISSO, ou seja, tratando as pessoas de maneira não dialógica e, por vezes, opressivamente. Calma, você não oprimiu, fique tranquila, mas também não construiu o conhecimento COM, por meio do EU-TU. Você coletou o que te interessava e ponto: EU-ISSO6. As pessoas foram “objetos de estudo”...

Sei que está aí sofrendo, mas entenda que esse lugar e essas experiências que você está passando (e já passou) te farão uma mulher madura, com muitas dúvidas, mas também com muitas certezas. Se não fosse por esse árduo processo que está a passar, nós não chegaríamos onde estamos... Não desanime! Transforme a tristeza e a angústia em determinação e esperança, termina o mestrado! E depois, saiba que seguirá o conselho da professora Marilia: - Vá viver querida!

E você viveu!!!

Voltará a dançar, casará, começará a lecionar no ensino superior, dançará mais, se divorciará, dançará mais ainda, irá para os Estados Unidos fazer curso, namorará, casará de novo, voltará a estudar e irá conhecer o ECOAR! Nem faz ideia do que possa ser ECOAR, mas eu te digo minha amiga, esse lugar, essas pessoas, esse acontecimento mudará a sua vida. ECOAR é um grupo de estudo e pesquisa “Estudos em Corpo e Arte”, coordenado pela professora Marilia e por VOCÊ! Sim, você será co-líder de um grupo de estudos da Universidade de São Paulo.

Chocada? Vou te contar como ...

Foi assim, a professora Marilia passará em um concurso e entrará na Escola de Artes Ciências e Humanidades da USP, mais conhecida como USP Leste (aquela que a professora Sandra da Nutrição entrou), e um dia, durante o encontro do GREPES ela te convidará para conhecer o ECOAR, e  no ano de 2013 você conhecerá o grupo e as pessoas que se tornarão suas amigas, confidentes, companheiras e irmãs de jornada acadêmica (e da vida)... Wesley Fernandez e Kátia dos Anjos, também tinha a Juliana, e é claro a sua diva inspiradora: Marilia Velardi (ps.: ela se tornará sua melhor amiga! Não dá risada, acredita em mim...).

Quando eu afirmo que o ECOAR mudou sua vida foi porquê nesse lugar, com essas pessoas que você irá (des) aprender, (des) entender, assimilar, mergulhar, (se) conhecer sobre corpo, sobre arte e, principalmente, sobre pesquisar.  Irá descobrir o que é ser quem você é, e descortinar como você pensa.

É nesse lugar, e com essas pessoas (e tantas outras incríveis que você vai conhecer), que começará seu projeto de vida!

Uma investigação como ofício! Como mulher, professora e bailarina, você vive pesquisando, não é? Aliás, nesse percurso encontrará seu companheiro Marcio, alguém que valorizará (e será seu fã) esse seu jeito indagador.  Você é pesquisadora na vida, da vida, e com a vida em movimento. Cada nova aula que cria, cada novo aluno e aluna que te instiga à mudar o processo, cada nova construção de movimento e do corpo em movimento... isso é investigação! Isso será seu percurso investigativo! Todos os dias, em todos os lugares você estará investigando... uma investigação da vida!

Pesquisar será seu ofício7!

Viu como o conselho da professora Marilia Velardi foi vital!

E com ela você vai conhecer um jeito de proceder que vai combinar com seu jeito de pensar! Descobrirá seu jeito de pensar para ser coerente nas suas ações investigativas...

Você pensa artisticamente8, e isso guia suas ações...

Reflete um pouquinho aí... Pensa quando constrói suas aulas... Você se inspira nos movimentos das alunas, no que elas fazem, daí surgem suas inquietações (concepções de exercícios, de movimentos e, no futuro, concepções coreográficas)... Você reflete e, na reflexão, outras possibilidades de investigação/criação surgem, você as anota, filma, desenha (bem feio, mas desenha). Depois, assiste, ouve, sente, e nessas possibilidades de (inter) relação – intersubjetividade - com as pessoas no mundo vai construindo suas aulas e, um dia, suas obras artísticas. Seu jeito de pensar, intuitivamente é artístico! Você pensa como uma artista!

E por favor, deixa de ficar dizendo por aí que você não é artista! Fica se gabando de ser boa professora e afirmando não ser artista... Não senhora! Você é sim ARTISTA! E PENSA COMO TAL!

Agora te pergunto, pensando assim, como desenvolver uma investigação acadêmica coerente com seu modo de pensar (e agir)?

AAAAHHHHH... não faz ideia né?!

Diante disso, te apresento as INVESTIGAÇÕES BASEADAS NAS ARTES IBA9 ou arts based research (ABR). Ressalto que você irá para alguns lugares do globo – Islândia, EUA e Chile (não você em si... mas no coração da Marilia) levando esse tipo de investigação. Ficará orgulhosa de pensar como você pensa!

Vou te explicar um pouco sobre essa tal de IBA... (aprendi tudo com a maravilhosa Marilia viu!)

Quando você adentrar no ECOAR, as pessoas já estarão buscando formas de pesquisar e de legitimar as investigações feitas por elas no campo das artes, buscando romper com as estruturas da ciência tradicional. A ideia de alicerçar as investigações nos ideais de um fazer qualitativo (e mais radicalmente qualitativo) estará impregnada nas ações práticas do grupo.

Devo te alertar que você demorará um pouco para compreender, terá que fazer por duas vezes as disciplinas que a Marilia lecionará... Mas será uma delícia estar com ela.

Então vou ser didática!

 Pensa em uma pesquisa que não investiga um objeto, mas uma experiência (dançada/performada). Ou como nos diria Brandão10, um acontecimento.

Uma experiência/acontecimento corporal.

Coletiva, dialógica, em movimento e impermanente (passível de modificação e reconstrução)...

Uma construção investigativa com o corpo em movimento!

Pensou? Agora reflita Renatinha... Como estudar isso?

A ciência é uma possibilidade de interrogar o mundo, mas esse conhecimento (experiência/acontecimento) é de outra natureza...

E como a pesquisa pode proporcionar o alcance a experiência/acontecimento? Especialmente se esta for sensorial e emocional, algo que não é possível por meio da representação ocorrida nos métodos científicos tradicionais e hegemônicos...

A arte é uma forma de pensar sobre o mundo... não seria possível então, usar as formas de pensar dos artistas como possibilidade de construir conhecimento, assim como fazemos com os teóricos e os cientistas?

Sim! É possível!

Como?

Buscando uma forma de investigar as artes que seja bem particular, usando racionalidades e processos do CAMPO DAS ARTES.

A arte nos possibilita entender o mundo de forma mais imaginativa e emocionalmente, e como artistas, podemos desenvolver condutas de pesquisa que  direcionadas por escolhas estéticas, podem revelar, comunicar, dar vida à experiência/acontecimento.

Como artista, sua construção, suas tomadas de decisão, a preparação corporal, a escolha das técnicas envolvidas e os processos próprios de criação são seus “modos de pensar e agir”. E esse modo de pensar e agir, pode inspirar bases epistemológicas na construção de uma investigação, especialmente no campo das pesquisas qualitativas mais radicais11.

Um fazer investigativo que traz a arte permeando as ações e o que se constrói é performado... Genial né!

Não temos a teoria a priori, e nem partimos de um experimento... a IBA deve revelar, narrando (dançando, contando, descrevendo, desenhando) as experiências/acontecimentos, convidando o leitor/expectador a participar das sua construção/investigação, dialogicamente, possibilitando uma “audiência ativa” e não linear.

E sabe porque você vai se interessar tanto por essa maneira de construir pesquisa Renatinha?

Porquê é a forma como tu pensas!

Você será muito feliz quando descobrir como pensa... se sentirá sendo você mesma como nunca sentiu em toda a sua vida! E em 2019 ingressará no doutorado na Universidade de São Paulo, sendo orientada pela pessoa que vai ser sua companheira de inquietações: Marilia Velardi!

Apesar de não ser um ano fácil para o Brasil (mas isto é assunto para outra carta), 2019 será um ano incrível para ti. Ficará muito orgulhosa da mulher que você se tornou! E muito orgulhosa do seu projeto de doutorado.

Vou te contar um pouquinho sobre ele...



 


Não queria te explicar a imagem, mas temo ser necessário, sei bem que deve tá olhando para essa imagem e achando que é um esboço sem sentido. Esse desenho foi feito por uma pessoa “maraaaa” que você conhecerá (e que te entenderá muito bem). Filipe Salvador, Filipinho.

Durante a disciplina “As pesquisas e as investigações baseadas nas Artes: experiência e interpretação”, a professora Marilia irá propor uma reflexão sobre: onde está a arte em nossa pesquisa? Em trios teremos que falar entre si sobre isso. No começo você ficará bem confusa para explicar, mas quando conseguir traduzir em palavras o que pretende com seu projeto o querido Filipe irá fazer este desenho aí em cima... E você descobrirá que a arte estará em todos os processos da sua investigação, algo muito preconizado na IBA:

1.       Você usará a arte como meio, fazendo uso de experiências artísticas e reflexivas para fomentar processos de reflexão sobre questões sociais contemporâneas.

2.      A arte também estará no caminho de orientação do seu pensar e fazer, pois se trata de investigativa holística, dinâmica, impermanente, intuitiva e criativa, que fará (e já está fazendo) uso de diferentes estratégias que partirão do seu olhar como investigadora, um olhar12 artístico e estético.

3.      Ao longo do processo, você irá fazer uso das artes também como possibilidade de produção do conhecimento, apresentação do que irá construir, performando os “dados”.

Sei que pode estar parecendo confuso e muito utópico, mas acredite, transformaremos a feitura das investigações artísticas na Universidade de São Paulo (talvez não toda, mas na ECA e na EACH sim).

O título do seu projeto será: Investigação baseada nas artes: estudos sobre a práxis da pesquisa pela/da/nas artes. E seu objetivo será entender e discorrer sobre o uso das estratégias baseadas nas expressões artísticas como forma de fomentar processos críticos e reflexivos sobre questões sociais, e como pano de fundo: as mulheres.

Logo em janeiro de 2020 você iniciará a primeira ação do seu projeto: proporá um curso de verão na EACH: Cartas e Corpo


 

Com o objetivo de proporcionar às participantes vivências corporais, inspiradas em técnicas de dança, esse curso quer trazer à tona reflexões sobre “ser mulher”.  Além disso, buscaremos produzir, como artefato, cartas, que serão trocadas entre as mulheres participantes cujo conteúdo será encenado por elas.

Apesar de parecer um início, na verdade seu projeto é um desdobramento de uma construção artística que você fará no ECOAR ao longo de três anos, com mulheres incríveis: Kátia, Ana, Marília e Marilia (isso sem contar a Isabel). Vocês, juntas, perceberão a necessidade de se falar sobre uma questão social que a tempo nos incomoda: o feminino e  o feminismo. Sua intenção será conduzir um projeto de investigação/ação por meio de uma práxis performática que abarque o uso da Investigação Baseada nas Artes para pensar, refletir, iluminar, discutir o ser mulher nesse país.

Lindo né!

Enxuga as lágrimas e se orgulhe!

E eu quis te escrever essa carta por isso... Para te acalmar. Você terá um futuro muito feliz como pesquisadora, não deixe esse processo insano te frustrar. Depois de ler essas palavras, eu espero que você entenda que precisa cumprir essa tarefa aí e viver!

E faça um favor para mim:

Sinta cada novo acontecimento em sua vida... Permita-se!  

Porquê eu sei quem você seria se você fosse você...

... E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais

Clarice Lispector

Fique bem querida...  e até o futuro!

Com amor

Renata Matsuo

Universidade de São Paulo – EACH

 


NOTAS

1 Esta carta se destina à Renata de 2007. Trata-se de um texto fictício baseiado em fatos reais e fundamentado na teoria de ficção científica denominada “fendas no espaço-tempo” (assentada nas Teorias de Einsten <https://www2.ifsc.usp.br/portal-ifsc/as-fendas-no-universo-e-as-possibilidades-da-viagem-no-tempo/>).

2 Durante a dissertação de mestrado fiz uso de procedimentos propostos por Fernando Gonzalez Rey. Para chegar neste autor, fiz um levantamento teórico sobre a teoria das Representações Sociais, proposta por autores como Serge Moscovici. Porém, esta parte da dissertação, denonimada Metodologia, cujo conteúdo me ajudaria a compreender a maneira como pensava Gonzalez Rey, foi extinta, visto que uma das pesoas da banca considerou desnecessária.  

3 Isso sem mencionar os anos de experiência no Método Vaganova de Balé Clássico, mais eurocêntrico e cartesiano impossível. Anos e mais anos de treinamento sobre uma maneira padronizada de pensar.

4 Pensando nas investigações qualitativas como um continuum: em uma das extremidades as pesquisas qualitativas com um viés  da ciências positivas e na outra extremidade encontram as pesquisas radicalmente qualitativas. E você estará nessa ponta extrema dentre alguns anos.

5 Henri Bergson foi um dos grandes filósofos do século XX. Nasceu em uma época em que a filosofia adotava métodos e objetivos sobremaneira positivistas e

materialistas, ele foi talvez o último verdadeiro metafísico. Tratou de diversos temas aparentemente desconexos, mas com um “fio” que liga todo eles, a intuição da duração, que o levou a criar um

método de conhecimento filosófico: o método intuitivo.

6 Intersubjetividade - (reciprocidades entre pessoas-sujeitos postas em relação). A partir das teorias do filósofo Martin Buber sobre as relações inter-humanas.

Este filósofo criou as palavras-princípios para explicar sobre essas relações: EU-ISSO (relação com o mundo das coisas objetais). EU-TU (relação entre os seres humanos). EU-TU ETERNO (relação com o absoluto, Deus).

7 Para Mills (1972) o trabalho como ofício significa fazer uso da sua experiência de vida no seu trabalho à todo instante, não havendo separação entre vida e trabalho.

8 “Pense como um artista!” nos aconselha Saldaña (2015) no capítulo 7 do seu livro “Thinking Qualitatively: methods of mind”. O professor desafia as pessoas leitoras a modificar a visão sobre a pesquisa qualitativa. Sua intenção é que deixemos de acreditar na pesquisa como uma investigação que use métodos somente como ferramentas para a coleta de dados, e que consideremos a investigação qualitativa fazendo uso do método como forma de pensamento, method of mind.

9 A IBA é definida por Leavy (2018) como uma abordagem transdisciplinar que faz uso dos princípios criativos da arte para a construção de conhecimento no contexto da pesquisa acadêmica. Trata-se do uso das artes na investigação, possibilitando dar vida ao processo, trazendo a experiência como cerne da pesquisa.

10 Para Carlos Rodrigues Brandão, a pesquisa é um acontecimento e não uma experiência (redutiva e objetivamente experimental). Um acontecimento pois não construo sozinha, mas diante de uma outra pessoa “Aqui e agora a minha pesquisa é, por um momento

que seja, nossa. E por ser uma forma de reciprocidade entre nós dois, entre você e

eu, acontece como um encontro, um acontecimento”.

11 Trecho retirado do capítulo do livro que você escreverá com  a Marilia e o Wesley. E é verdade viu!  (FERNANDEZ, MATSUO e VELARDI, 2017).

12 Se lembra das palavras do professor Rodney Santos: escolha bem os óculos através dos quais irá enxergar as coisas importantes da vida! Então querida, você descobriu seu óculos!

 

REFERÊNCIAS

 

DENZIN, Norman K. Re-leyendo performance, praxis y política. Investigación Cualitativa, v. 1, n. 1, p. 57-78, 2016.

FERNANDEZ, Wesley; MATSUO, Renata Frazão; VELARDI, Marilia. A investigação baseada nas artes ou o arts based research como estratégia de investigação. In.: PEREIRA, Diamantino (org) Mudança Social e Participação Política:  estudos e ações transdisciplinares. São Paulo: Annablume, 2017.

LEAVY, Patricia (Ed.). Handbook of arts-based research. Guilford Publications, 2018. 

MILLS, Charles Wright. A imaginação sociológica. 3.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1972. 

SALDAÑA Johny. Thinking Qualitatively: methods of mind. Washington DC: SAGE, 2015 

VELARDI, Marilia. Questionamentos e propostas sobre corpos de emergência: reflexões sobre investigação artística radicalmente qualitativa. MORINGA-Artes do Espetáculo, v. 9, n. 1, 2018.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Envelhe-seres Mulher

PACHA MAMA