Trabalho final "As pesquisas e as investigações baseadas nas Artes: experiência e interpretação"
"A arte não existe para produzir o visível, e sim para tornar visível o que está além."
Paul KleeCarta à Renata Matsuo
Prezada Renata – Universidade
São Judas,
Não quero
parecer autocentrada, muito menos insana com esta carta1. Normalmente as
pessoas costumam escrever cartas para o seu “eu” do futuro, com vistas à saber
se o que almejava se tornou realidade... O meu propósito é um pouco diferente,
na verdade meu objetivo é escrever uma carta para o meu “eu” do passado... Para
você Renatinha! Meu intuito é te acalmar, porque eu sei que está desanimada e
aflita.
Neste exato
instante você deve estar aí, sentadinha no escritório improvisado, na dispensa
do apartamento em que moramos. Deve ser 1:00 da manhã, e nossa chinchila Lana
deve estar te fazendo companhia. Imagino que você deva estar em prantos, e se
sentindo solitária. Isso porque sua orientadora te deu um prazo curtíssimo para
entregar o capítulo sobre promoção da saúde, e você está tendo dificuldades de
escrita... O medo de não conseguir escrever vem atrelado ao medo de não
corresponder às expectativas dela : - Prazos! Temos que cumprir os prazos!
Quero você defendendo antes de dezembro!
Calma! Respira,
enxuga suas lágrimas, e leia com atenção essas linhas. Vou te tranquilizar, e
você vai entender o quanto tudo isso não vai fazer nenhum sentido dentro de
alguns anos...
Então vamos lá!
Minha cara
Renata, você tem total razão em ficar frustrada com sua escrita. Todas essas
noites sem dormir, lutando para escrever alguns parágrafos, e que serão
apagados depois, realmente não é fácil. Mas isso porque você ainda não sabe
como você pensa!
COMO VOCÊ PENSA?
Exatamente isso!
Como você pensa?
Hoje eu sei como
você pensa. E sei que aí na frente do computador, você não está coerente com
seu modo de pensar. Está tentando se enquadrar em um “fazer científico”, com
uma escrita determinada, que te dificulta colocar no papel seus pensamentos... Garanto
que daqui alguns anos você sentará na frente do seu computador e escreverá as páginas
do seu projeto de doutorado com facilidade. E não será porque terá experiência
nessa escrita “científica”! Será porque escreverá como pensa, e escreverá sobre
o que te importa! Então não se aflija, vou tentar te fazer entender o motivo de
tanta dificuldade na escrita e no raciocínio dito “científico”...
É importante
Renata, que antes de mais nada, você compreenda que método não é aquela parte
do seu projeto de pesquisa em que você descreve os seus procedimentos. Método é forma de pensamento, como se pensa a
construção da investigação! Aliás, é preciso saber como se pensa, para então
poder escolher os procedimentos a adotar na pesquisa... Você inclusive havia feito isso em sua
dissertação, se lembra? Começou um estudo teórico para a escrita de um capítulo
chamado “metodologia”, mas foi obrigada a apagar2. Pois é, as pessoas acreditam não ser
importante estudar sobre método, pois julgam que isso já é dado, e que há uma
maneira certa de se pensar sobre as questões investigativas, especialmente na
área da Educação Física. E como há uma maneira “certa” de se PENSAR,
somos (E FOMOS) levadas a acreditar, desde sempre, que há um jeito “certo” de
se PROCEDER
para construir pesquisa. Especialmente a pesquisa dita “científica”.
É Renata, temos
que admitir, você aprendeu com muita excelência esse jeito “certo” de fazer
pesquisa. Seus anos de graduação e pós graduação na São Judas te fizeram uma legítima
herdeira do modelo de racionalidade historicamente imposto. Você aprendeu muito
bem como fazer pesquisa ancorada nas lógicas dedutiva, indutiva e
hipotética-dedutiva, sob a égide do paradigma cartesiano3.
É claro que isso
não foi de todo inútil! Não posso deixar de pontuar que este percurso lhe rendeu
grande reconhecimento. Em 2015 você conseguirá um emprego na Faculdade Drummond
por conta dessa organização que tem para construir pesquisas “científicas”. Aliás,
você também se tornará orientadora oficial do curso de pós graduação em
Acupuntura da Estácio. Se tornará uma excelente executora (e orientadora) de
processos/técnicas, para construir pesquisas nessa lógica tradicional.
Útil foi, mas
isso te trará extrema dificuldade para descobrir o modo como VOCÊ PENSA. Vai
demorar pelo menos alguns anos para desconstruir e redescobrir-se pesquisadora.
Você é
intuitiva!
Isso você já
sabe... canceriana que teve que morar sozinha com 17 anos, aprendeu a seguir
sua intuição para viver... Mas eu estou afirmando que você poderá usar essa
intuição, que usa para viver, na construção e produção de conhecimento na
academia.
Te conhecendo
tão bem como conheço, aposto que está gargalhando neste momento, afirmando:
intuição não é método científico!
Tradicionalmente
não! Mas, no futuro, você deixará de fazer pesquisas tradicionais. Você será
uma investigadora radicalmente qualitativa4! E para tanto deverá assumir sua intuição como
uma forma de pensar e de construir suas investigações.
Vou te dar
alguns exemplos sobre sua intuição...
Como cozinha?
Como dirige?
Como arruma os
armários?
No fluxo da vida
minha filha! No caos!
E não funciona?
Agora como você
coreografa? E como escreve sua dissertação?
Aposto que levou
as mãos à cabeça e teve vontade de chorar... Não gosta de coreografar e nem de
escrever!!!
Exatamente minha
querida! Porque você não está sendo coerente consigo mesma! Está usando uma
racionalidade que não é a sua!
Vou te contar
uma coisa do seu futuro: No espetáculo de 2019 do estúdio Phalibis (é você
trabalhará lá até 2019) você coreografará pela primeira vez seguindo sua
intuição... e será a primeira vez que se sentirá orgulhosa do processo (algo
que sempre te encanta) e do resultado (isso mesmo, até o produto te
encantará). Intuição! Coerência! Você será bem feliz querida!
Henri Begson5 é o filósofo que você
estudará para compreender esse conceito de intuição. O método intuitivo
bergsoniano é essencialmente interior, no sentido de se voltar primeiramente
para si, partindo da sua própria vida e da suas experiências vividas e gravadas
na memória (duração). A intuição faz parte da consciência, mas nos afeta antes
da racionalização. Como artista, e das artes do corpo, você às vezes toma
decisões que não consegue racionalizar... Especialmente na sua prática
docente... INTUIÇÃO!
Talvez ainda não acredite. Talvez nem acha que
deva ser, porque intuição e ciência não são coisas que combinem. Mas você
descobrirá que talvez nem faça mais CIÊNCIA (Talvez nunca tenha feito)! E tudo
bem! Vai entrar no doutorado sem precisar fazer “essa ciência” tradicional, nos
ditames impostos.
Além disso, devo
te lembrar que sua intuição te assombrou tanto na coleta de dados do
mestrado... me lembro bem! Você encontrou tantas “coisas” das quais gostaria de
ter falado! Mas estava “focada” no objeto de estudo... e estava coberta de
razão em ficar desconfortável com isso. No futuro você vai aprender sobre algo
que vai mudar sua vida: INTERSUBJETIVIDADE! Entenderá que mesmo nas pesquisas
qualitativas que usam entrevistas (como a sua), pode ser que você esteja
fazendo uso do EU-ISSO, ou seja, tratando as pessoas de maneira não dialógica
e, por vezes, opressivamente. Calma, você não oprimiu, fique tranquila, mas
também não construiu o conhecimento COM, por meio do EU-TU. Você coletou o que
te interessava e ponto: EU-ISSO6. As pessoas foram “objetos de estudo”...
Sei que está aí
sofrendo, mas entenda que esse lugar e essas experiências que você está
passando (e já passou) te farão uma mulher madura, com muitas dúvidas, mas
também com muitas certezas. Se não fosse por esse árduo processo que está a
passar, nós não chegaríamos onde estamos... Não desanime! Transforme a tristeza
e a angústia em determinação e esperança, termina o mestrado! E depois, saiba
que seguirá o conselho da professora Marilia: - Vá viver querida!
E você viveu!!!
Voltará a
dançar, casará, começará a lecionar no ensino superior, dançará mais, se
divorciará, dançará mais ainda, irá para os Estados Unidos fazer curso, namorará,
casará de novo, voltará a estudar e irá conhecer o ECOAR! Nem faz ideia do que
possa ser ECOAR, mas eu te digo minha amiga, esse lugar, essas pessoas, esse
acontecimento mudará a sua vida. ECOAR é um grupo de estudo e pesquisa “Estudos
em Corpo e Arte”, coordenado pela professora Marilia e por VOCÊ! Sim, você será
co-líder de um grupo de estudos da Universidade de São Paulo.
Chocada? Vou te
contar como ...
Foi assim, a
professora Marilia passará em um concurso e entrará na Escola de Artes Ciências
e Humanidades da USP, mais conhecida como USP Leste (aquela que a professora
Sandra da Nutrição entrou), e um dia, durante o encontro do GREPES ela te convidará
para conhecer o ECOAR, e no ano de 2013
você conhecerá o grupo e as pessoas que se tornarão suas amigas, confidentes,
companheiras e irmãs de jornada acadêmica (e da vida)... Wesley Fernandez e
Kátia dos Anjos, também tinha a Juliana, e é claro a sua diva inspiradora:
Marilia Velardi (ps.: ela se tornará sua melhor amiga! Não dá risada, acredita
em mim...).
Quando eu afirmo
que o ECOAR mudou sua vida foi porquê nesse lugar, com essas pessoas que você
irá (des) aprender, (des) entender, assimilar, mergulhar, (se) conhecer sobre
corpo, sobre arte e, principalmente, sobre pesquisar. Irá descobrir o que é ser quem você é, e descortinar
como você pensa.
É nesse lugar, e
com essas pessoas (e tantas outras incríveis que você vai conhecer), que
começará seu projeto de vida!
Uma investigação
como ofício! Como mulher, professora e bailarina, você vive pesquisando, não é?
Aliás, nesse percurso encontrará seu companheiro Marcio, alguém que valorizará
(e será seu fã) esse seu jeito indagador. Você é pesquisadora na vida, da vida, e com a
vida em movimento. Cada nova aula que cria, cada novo aluno e aluna que te
instiga à mudar o processo, cada nova construção de movimento e do corpo em
movimento... isso é investigação! Isso será seu percurso investigativo! Todos
os dias, em todos os lugares você estará investigando... uma investigação da
vida!
Pesquisar será
seu ofício7!
Viu como o
conselho da professora Marilia Velardi foi vital!
E com ela você
vai conhecer um jeito de proceder que vai combinar com seu jeito de pensar!
Descobrirá seu jeito de pensar para ser coerente nas suas ações
investigativas...
Você pensa
artisticamente8,
e isso guia suas ações...
Reflete um
pouquinho aí... Pensa quando constrói suas aulas... Você se inspira nos
movimentos das alunas, no que elas fazem, daí surgem suas inquietações
(concepções de exercícios, de movimentos e, no futuro, concepções
coreográficas)... Você reflete e, na reflexão, outras possibilidades de
investigação/criação surgem, você as anota, filma, desenha (bem feio, mas
desenha). Depois, assiste, ouve, sente, e nessas possibilidades de (inter)
relação – intersubjetividade - com as pessoas no mundo vai construindo suas
aulas e, um dia, suas obras artísticas. Seu jeito de pensar, intuitivamente é
artístico! Você pensa como uma artista!
E por favor,
deixa de ficar dizendo por aí que você não é artista! Fica se gabando de ser
boa professora e afirmando não ser artista... Não senhora! Você é sim ARTISTA!
E PENSA COMO TAL!
Agora te
pergunto, pensando assim, como desenvolver uma investigação acadêmica coerente
com seu modo de pensar (e agir)?
AAAAHHHHH... não
faz ideia né?!
Diante disso, te
apresento as INVESTIGAÇÕES BASEADAS NAS ARTES IBA9 ou arts based research (ABR). Ressalto
que você irá para alguns lugares do globo – Islândia, EUA e Chile (não você em
si... mas no coração da Marilia) levando esse tipo de investigação. Ficará
orgulhosa de pensar como você pensa!
Vou te explicar
um pouco sobre essa tal de IBA... (aprendi tudo com a maravilhosa Marilia viu!)
Quando você
adentrar no ECOAR, as pessoas já estarão buscando formas de pesquisar e de
legitimar as investigações feitas por elas no campo das artes, buscando romper
com as estruturas da ciência tradicional. A ideia de alicerçar as investigações
nos ideais de um fazer qualitativo (e mais radicalmente qualitativo) estará
impregnada nas ações práticas do grupo.
Devo te alertar
que você demorará um pouco para compreender, terá que fazer por duas vezes as
disciplinas que a Marilia lecionará... Mas será uma delícia estar com ela.
Então vou ser
didática!
Pensa em uma pesquisa que não investiga um
objeto, mas uma experiência (dançada/performada). Ou como nos diria Brandão10, um acontecimento.
Uma experiência/acontecimento
corporal.
Coletiva,
dialógica, em movimento e impermanente (passível de modificação e reconstrução)...
Uma construção
investigativa com o corpo em movimento!
Pensou? Agora
reflita Renatinha... Como estudar isso?
A ciência é uma
possibilidade de interrogar o mundo, mas esse conhecimento (experiência/acontecimento)
é de outra natureza...
E como a pesquisa
pode proporcionar o alcance a experiência/acontecimento? Especialmente se esta
for sensorial e emocional, algo que não é possível por meio da representação
ocorrida nos métodos científicos tradicionais e hegemônicos...
A arte é uma
forma de pensar sobre o mundo... não seria possível então, usar as formas de
pensar dos artistas como possibilidade de construir conhecimento, assim como
fazemos com os teóricos e os cientistas?
Sim! É possível!
Como?
Buscando uma
forma de investigar as artes que seja bem particular, usando racionalidades e
processos do CAMPO DAS ARTES.
A arte nos
possibilita entender o mundo de forma mais imaginativa e emocionalmente, e como
artistas, podemos desenvolver condutas de pesquisa que direcionadas por escolhas estéticas, podem
revelar, comunicar, dar vida à experiência/acontecimento.
Como artista, sua
construção, suas tomadas de decisão, a preparação corporal, a escolha das
técnicas envolvidas e os processos próprios de criação são seus “modos de
pensar e agir”. E esse modo de pensar e agir, pode inspirar bases
epistemológicas na construção de uma investigação, especialmente no campo das
pesquisas qualitativas mais radicais11.
Um fazer
investigativo que traz a arte permeando as ações e o que se constrói é
performado... Genial né!
Não temos a
teoria a priori, e nem partimos de um experimento... a IBA deve revelar, narrando
(dançando, contando, descrevendo, desenhando) as experiências/acontecimentos,
convidando o leitor/expectador a participar das sua construção/investigação,
dialogicamente, possibilitando uma “audiência ativa” e não linear.
E sabe porque
você vai se interessar tanto por essa maneira de construir pesquisa Renatinha?
Porquê é a forma
como tu pensas!
Você será muito
feliz quando descobrir como pensa... se sentirá sendo você mesma como nunca
sentiu em toda a sua vida! E em 2019 ingressará no doutorado na Universidade de
São Paulo, sendo orientada pela pessoa que vai ser sua companheira de
inquietações: Marilia Velardi!
Apesar de não
ser um ano fácil para o Brasil (mas isto é assunto para outra carta), 2019 será
um ano incrível para ti. Ficará muito orgulhosa da mulher que você se tornou! E
muito orgulhosa do seu projeto de doutorado.
Vou te contar um
pouquinho sobre ele...
Não queria te
explicar a imagem, mas temo ser necessário, sei bem que deve tá olhando para
essa imagem e achando que é um esboço sem sentido. Esse desenho foi feito por
uma pessoa “maraaaa” que você conhecerá (e que te entenderá muito bem). Filipe
Salvador, Filipinho.
Durante a
disciplina “As pesquisas e as investigações baseadas nas Artes: experiência e
interpretação”, a professora Marilia irá propor uma reflexão sobre: onde está a
arte em nossa pesquisa? Em trios teremos que falar entre si sobre isso. No
começo você ficará bem confusa para explicar, mas quando conseguir traduzir em
palavras o que pretende com seu projeto o querido Filipe irá fazer este desenho
aí em cima... E você descobrirá que a arte estará em todos os processos da sua
investigação, algo muito preconizado na IBA:
1. Você
usará a arte como meio, fazendo uso de experiências artísticas e
reflexivas para fomentar processos de reflexão sobre questões sociais
contemporâneas.
2. A
arte também estará no caminho de orientação do seu pensar e fazer, pois se
trata de investigativa holística, dinâmica, impermanente, intuitiva e criativa,
que fará (e já está fazendo) uso de diferentes estratégias que partirão do seu
olhar como investigadora, um olhar12 artístico e estético.
3. Ao
longo do processo, você irá fazer uso das artes também como possibilidade de produção do
conhecimento, apresentação do que irá construir, performando os “dados”.
Sei que pode
estar parecendo confuso e muito utópico, mas acredite, transformaremos a
feitura das investigações artísticas na Universidade de São Paulo (talvez não
toda, mas na ECA e na EACH sim).
O título do seu
projeto será: Investigação baseada nas artes: estudos sobre a práxis da
pesquisa pela/da/nas artes. E seu objetivo será entender e discorrer sobre o
uso das estratégias baseadas nas expressões artísticas como forma de fomentar
processos críticos e reflexivos sobre questões sociais, e como pano de fundo:
as mulheres.
Logo em janeiro
de 2020 você iniciará a primeira ação do seu projeto: proporá um curso de verão
na EACH: Cartas e Corpo
Com o objetivo
de proporcionar às participantes vivências corporais, inspiradas em técnicas de
dança, esse curso quer trazer à tona reflexões sobre “ser mulher”. Além disso, buscaremos produzir, como
artefato, cartas, que serão trocadas entre as mulheres participantes cujo
conteúdo será encenado por elas.
Apesar de
parecer um início, na verdade seu projeto é um desdobramento de uma construção
artística que você fará no ECOAR ao longo de três anos, com mulheres incríveis:
Kátia, Ana, Marília e Marilia (isso sem contar a Isabel). Vocês, juntas,
perceberão a necessidade de se falar sobre uma questão social que a tempo nos
incomoda: o feminino e o feminismo. Sua
intenção será conduzir um projeto de investigação/ação por meio de uma práxis
performática que abarque o uso da Investigação Baseada nas Artes para pensar,
refletir, iluminar, discutir o ser mulher nesse país.
Lindo né!
Enxuga as
lágrimas e se orgulhe!
E eu quis te
escrever essa carta por isso... Para te acalmar. Você terá um futuro muito
feliz como pesquisadora, não deixe esse processo insano te frustrar. Depois de
ler essas palavras, eu espero que você entenda que precisa cumprir essa tarefa
aí e viver!
E faça um favor
para mim:
Sinta cada novo
acontecimento em sua vida... Permita-se!
Porquê eu sei quem
você seria se você fosse você...
... E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o
futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior
perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.
No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras
chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo.
Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela
que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase
de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de
algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de
pudor que se tem diante do que é grande demais
Clarice Lispector
Fique bem querida...
e até o futuro!
Com amor
Renata Matsuo
Universidade de São Paulo – EACH
NOTAS
1 Esta carta se destina à Renata de 2007. Trata-se de um
texto fictício baseiado em fatos reais e fundamentado na teoria de ficção
científica denominada “fendas no espaço-tempo” (assentada nas Teorias de
Einsten
<https://www2.ifsc.usp.br/portal-ifsc/as-fendas-no-universo-e-as-possibilidades-da-viagem-no-tempo/>).
2 Durante a dissertação
de mestrado fiz uso de procedimentos propostos por Fernando Gonzalez Rey. Para
chegar neste autor, fiz um levantamento teórico sobre a teoria das
Representações Sociais, proposta por autores como Serge Moscovici. Porém, esta
parte da dissertação, denonimada Metodologia, cujo conteúdo me ajudaria a
compreender a maneira como pensava Gonzalez Rey, foi extinta, visto que uma das
pesoas da banca considerou desnecessária.
3 Isso sem mencionar os
anos de experiência no Método Vaganova de Balé Clássico, mais eurocêntrico e
cartesiano impossível. Anos e mais anos de treinamento sobre uma maneira
padronizada de pensar.
4 Pensando nas
investigações qualitativas como um continuum: em uma das extremidades as
pesquisas qualitativas com um viés da
ciências positivas e na outra extremidade encontram as pesquisas radicalmente
qualitativas. E você estará nessa ponta extrema dentre alguns anos.
5 Henri Bergson foi um
dos grandes filósofos do século XX. Nasceu em uma época em que a filosofia
adotava métodos e objetivos sobremaneira positivistas e
materialistas, ele foi talvez o último verdadeiro
metafísico. Tratou de diversos temas aparentemente desconexos, mas com um “fio”
que liga todo eles, a intuição da duração, que o levou a criar um
método de conhecimento filosófico: o método
intuitivo.
6 Intersubjetividade - (reciprocidades
entre pessoas-sujeitos postas em relação). A partir das teorias do filósofo
Martin Buber sobre as relações inter-humanas.
Este filósofo criou as palavras-princípios para
explicar sobre essas relações: EU-ISSO (relação com o mundo das coisas
objetais). EU-TU (relação entre os seres humanos). EU-TU ETERNO (relação com o
absoluto, Deus).
7 Para Mills (1972) o
trabalho como ofício significa fazer uso da sua experiência de vida no seu trabalho
à todo instante, não havendo separação entre vida e trabalho.
8 “Pense como um
artista!” nos aconselha Saldaña (2015) no capítulo 7 do seu livro “Thinking
Qualitatively: methods of mind”. O professor desafia as pessoas leitoras a
modificar a visão sobre a pesquisa qualitativa. Sua intenção é que deixemos de
acreditar na pesquisa como uma investigação que use métodos somente como
ferramentas para a coleta de dados, e que consideremos a investigação
qualitativa fazendo uso do método como forma de pensamento, method of mind.
9 A IBA é definida por
Leavy (2018) como uma abordagem transdisciplinar que faz uso dos princípios
criativos da arte para a construção de conhecimento no contexto da pesquisa
acadêmica. Trata-se do uso das artes na investigação, possibilitando dar vida
ao processo, trazendo a experiência como cerne da pesquisa.
10 Para Carlos Rodrigues
Brandão, a pesquisa é um acontecimento e não uma experiência (redutiva e
objetivamente experimental). Um acontecimento pois não construo sozinha, mas
diante de uma outra pessoa “Aqui e agora a minha pesquisa é, por um momento
que seja, nossa. E por ser uma forma de reciprocidade
entre nós dois, entre você e
eu, acontece como um encontro, um acontecimento”.
11 Trecho retirado do
capítulo do livro que você escreverá com
a Marilia e o Wesley. E é verdade viu!
(FERNANDEZ, MATSUO e VELARDI, 2017).
12 Se lembra das palavras
do professor Rodney Santos: escolha bem os óculos através dos quais irá
enxergar as coisas importantes da vida! Então querida, você descobriu seu
óculos!
REFERÊNCIAS
DENZIN, Norman K. Re-leyendo performance, praxis y política. Investigación Cualitativa, v. 1, n. 1,
p. 57-78, 2016.
FERNANDEZ, Wesley; MATSUO, Renata Frazão; VELARDI, Marilia. A investigação baseada nas artes ou o arts based research como estratégia de investigação. In.: PEREIRA, Diamantino (org) Mudança Social e Participação Política: estudos e ações transdisciplinares. São Paulo: Annablume, 2017.
LEAVY, Patricia (Ed.). Handbook of arts-based research. Guilford Publications, 2018.
MILLS, Charles Wright. A imaginação sociológica. 3.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.
SALDAÑA Johny. Thinking Qualitatively: methods of mind. Washington DC: SAGE, 2015
VELARDI, Marilia. Questionamentos e propostas sobre corpos de emergência:
reflexões sobre investigação artística radicalmente qualitativa. MORINGA-Artes do Espetáculo, v. 9, n.
1, 2018.


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