PERFORMANCE SE EU FOSSE / IF I WERE ME

 MONÓLOGO INICIAL

PERFORMANCE SE EU FOSSE / IF I WERE ME


Texto de Anna Carolina Longano


O problema não é que eu nasci. A foda é que eu nasci mulher. E não é que o problema é meu. Eu acho que o problema é dos outros. Mas quem se fode com as consequências sempre sou eu.

Porque, mano, quando você nasce mulher, você já nasce com uma carga filha da puta do que você deverá ser. Você já nasce com uma porra de forma de agir estipulada e os destinos possíveis já impostos. Quando você nasce mulher, você já nasce rosa. Da roupa rosa, do lacinho rosa, do brinquinho rosa, da buceta rosa, do quarto rosa, do futuro cor de rosa.

Você é bonitinha, jeitosinha, espertinha. Não é forte, não é inteligente, não é. E quando você nasce e tem um irmão, homem, como é o meu caso, as diferenças entre ser menina ou menino, entre ser mulher ou homem, ficam batendo o tempo inteiro na sua cara. Sua própria casa não é um refúgio, mas sim um microcosmo do que te espera da porta pra fora. Você já cresce com medo de ser mulher dentro da porra da sua própria casa.

Eu sempre lembro de uma cena do Uma Linda Mulher, o filme, quando a Julia Roberts pergunta para o Richard Gere porque todo homem sabe bater em uma mulher. Ela pergunta se tem algum momento, na escola, em que os homens são levados para uma sala e aprendem a bater.

Eu fico pensando, cacete, quantas vezes os homens são levados para uma sala que nós não podemos entrar? Meu irmão, por exemplo, queria ser herói. Eu não lembro qual deles, mas algum bem grande, bem forte e que tinha uma espada. Um dia, eu brinquei com ele e aí tinha virado uma super-heroína também! Eu era uma super-heroína meio aranha e estava livre para escalar a casa inteira. Quando meus pais chegaram, tomei no cu, eles gritaram comigo, mandaram eu ter modos. Eu parei de ser super-herói e passei a ser uma princesa. Nunca mais herói, só princesa. Velho, olha aqui pra mim, vê se levo jeito pra ser uma porra de uma princesinha de merda?

Parece que quando você nasce homem, você cria uma voz dentro da sua cabeça que diz “você é incrível! Você pode, você é capaz!”. E a gente...bom, eu tenho uma voz dentro de mim, mas ela diz:  “Você está errada! Você deveria? Como você é capaz disso?”.

E tudo isso vai piorando conforme a gente cresce, e aí fodeu, ser mulher não tem mais volta. Você tem peito, tem bunda, tem cabelo comprido, unha feita, perna depilada e está no auge da sua idade reprodutiva. Você se formou na faculdade e agora deve casar. Eu acho que foi nesse momento que eu tive a certeza de ser o maior desgosto da minha família.

Eu lembro que fui em dois casamentos que me marcaram. No primeiro, o padre ressaltava como o casal estava agindo certo, pois recusando o modismo atual, eles resistiram e não foram morar juntos antes do casamento. Meu cu! O casamento deles durou 2 anos e terminou de uma maneira muito pesada. No segundo casamento, a pastora, mulher, dizia as vantagens de um bom casamento, quando a mulher, saída da costela de Adão, assumia o papel de auxiliadora do marido.  Mano, acho que eu nunca tive tanta vontade de gritar! Eu queria trabalhar, viajar, estudar, ser mais ativista. Fazer pós, mestrado, doutorado. Eu queria beijar, namorar, dar. Eu queria ficar sozinha, parada, quieta. Eu queria viver só pra mim e só praquilo que eu tinha escolhido. Se eu casasse, teria que escolher entre minha casa ou meus livros. Escolhi meus livros.

E tomei no cu bonito por essa escolha. Porque você vai ficando mais velha e existe uma porra de um cronômetro coletivo que tá contando os segundos que te restam pra você parar de servir para os homens. Teu peito cai, tua cara enruga quando você sorri. Você tem uma porra de uma barriga que não sai dali e tua bunda...puta que pariu, a minha bunda...eu fico pensando, quantas horas da vida um homem passa preocupado com própria bunda?

(Não tô falando da quantidade de piadas escrotas sobre ter os seus sagrados cus violados... é, essa a diferença de você não crescer achando que todos os seus buracos são destinados ao prazer dos outros, né?)

Uma hora e meia por semana. Esse é o tempo que eu passo apenas malhando a minha bunda. Depois passo mais um tempo provando minhas calças e vendo se elas não estão muito marcadas na bunda, pra que eu minimize a possibilidade de um idiota passar a mão na minha bunda.  A propósito, algum homem aqui, alguém já passou a mão na sua bunda sem que você quisesse? Não? Deixa eu contar, é legal pra caralho. Mas ao contrário. Eu tinha 7 anos a primeira vez que isso aconteceu comigo.

Bom, eu não casei, mas eu estudava e trabalhava. Mas isso não bastava. Dividia com meu pai as contas de casa. Mas isso não bastava. Eu dividia com minha mãe a limpeza da casa. Mas isso não bastava. Até que uma hora eu não aguentei, eu segui meus princípios e... lutei. Isso, lutei! Mandei tudo à merda e saí de casa.

Era uma porra de um quarto alugado, mas era meu. Só meu. Eu era livre, era até estranho. Naquele quarto eu estava certa, eu tinha razão, eu fazia boas escolhas. Era liberdade demais, então descobri um jeito de viver. Uma vez por semana eu visitava meus pais. Todo o descontentamento deles sobre mim e a MINHA vida, as MINHAS escolhas, eram descarregados em mim. Então meus pais reais me puniam uma vez por semana e meus pais da minha cabeça continuavam a punição pelos outros 6 dias.

Então, já que eu estava fazendo tudo errado mesmo, resolvi apenas fazer. Namorei, terminei, dei, não dei. Viajei com família de namorado, viajei com cara que tinha acabado de conhecer. Viajei com amigo e não rolou nada, porque a gente só era amigo. Peguei carona com cretino do trabalho que tentou me agarrar porque aparentemente o pré-requisito para a carona era um boquete, e era óbvio, porque eu era uma mulher e tinha aceitado a carona de um homem, entendeu? Era óbvio!

Bom, pra resumir? Passou tudo isso e eu era uma pessoa reclusa, eremita. Eu tava solitária pra caralho e achei que fosse ficar sozinha pra sempre. Mas há dois anos, encontrei um cara. Um cara legal. Um cara que achou escroto quando a gente encontrou um conhecido meu que gargalhou quando eu disse que estava namorando. Gargalhou. Você? Namorando?

Estamos juntos. Moramos juntos, sim, sem nos casar. Chupa, senhor padre daquele casamento que falei! Meu namorado me dá o poder da invisibilidade: quando vou à casa dos meus pais pegar minha desaprovação semanal, ele ativa o meu poder da invisibilidade, e meus pais ignoram minha presença para dar atenção a ele e para todos os sucessos que ele conquistou. Eu e ele temos a mesma profissão. A mesma carreira. Na mesma empresa. O mesmo cargo. Eu tenho mais estudo.

Mas, de boa, pra mim tanto faz. Eu nem quero que me digam que estou fazendo algo bem. Só de não falarem que estou fazendo tudo errado, eu já fico feliz pra cacete!

Ah, e por que cazzo eu tô falando tudo isso? Porque outro dia, no meio de uma viagem, ele virou pra mim e disse: “quer casar comigo?”. E não é que, pra alegria dos meus pais, eu respondi:

Sim.




Paisagem Sonora Construída por Isabel Nogueira e Linda O'Keefe (para ouvir clique no link abaixo)



Performance completa




Link para acesso do capítulo publicado sobre as performances vividas:

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