Sobre nós
Sobre Nós
Renata está deitada em cima de uma mesa, vemos uma janela ao fundo.
Renata está com metade do corpo pendurado para fora, como se todo o peso do
mundo estivesse sobre seu corpo.
Renata: 5, 6, 7, 8… (tenta se mover e não consegue. Respira, começa de novo). 5, 6, 7,
8…(tenta se mover e não consegue. Respira
e tenta começar novamente). 5, 6, 7, 8….Aaaaaaah! (Frustrada, fala uma sequência de movimentos - e aqui seria legal usar
termos técnicos de movimentos de ballet). Abre, fecha, dois tempos,
rolamento e vai, 4…5, 6, 7, 8…tsc…(não
consegue se mexer). Qual a minha motivação inicial? Qual a minha
motivação…agora? Calma, tá tudo bem! Tá tudo bem não ser a melhor sempre…
hahahahaha, tá tudo bem não ser a melhor sempre! Mentira! Não está tudo bem não
ser a melhor sempre! Não está! Não está tudo bem!
Toca um alarme. Renata salta da mesa, tenta se recompor. Coloca um
sorriso mecânico e anda como se tivesse entrando em uma sala de aula.
Renata: Bom
dia! Tudo bem com vocês?
Silêncio.
Renata (Começa falar mecanicamente, só depois
se dá conta de que ninguém respondeu): Ótimo, então
vamos lá? 5, 6, 7, 8 e… espera. Eu fiz uma pergunta. Está tudo bem?
Silêncio.
Renata(Novamente, tenta passar por cima do
desconforto mas não consegue): Eu…eu… Bom, vamos lá, vocês já sabem o que tem que
fazer. 5,6,7, 8 e… Espera. Não! Não! Pode parar!
A partir de agora ouvimos vozes de 4 mulheres distintas, denominadas de
M1, M2, M3 e M4.
M1: Mas a
gente tava no tempo certo.
M2: Seguindo
direitinho os números.
M3: No tempo
certo!
M4: 5, 6, 7,
8…
Renata:
Eu…vocês… eu não trabalho com números! Dança não é sobre números, tempos,
batidas…dança é...sobre…(não sabe como
terminar a frase). Eu fiz uma
pergunta: está tudo bem?
Silêncio por muito tempo.
M1, M2, M3 e M4 (as vozes podem surgir ao mesmo tempo
ou uma começa e as outras vão fazendo coro): Não, não está tudo bem. Estou
cansada, estou acabada, estou arrasada, estou estressada, estraçalhada, e isso
não parece fazer diferença para ninguém. Estou perdida, desesperada, deslocada
e parece que não posso falar isso para ninguém sem parecer que eu fracassei. Ou
que a culpa é minha. Ou que estou dando um chilique. Não está tudo bem, e tenho
a sensação de que faz anos que não está tudo bem. Faz anos que acordo, cumpro o
que preciso cumprir, agrado a quem preciso agradar, apenas para chegar ao final
do dia dolorida, cansada e frustrada, pois não consigo deixar de acreditar que
eu falhei todos os dias. Não está tudo bem, mas não vou responder sua pergunta
porque não quero mentir. Não está tudo bem, e não vou responder o que realmente
penso porque não quero chorar. Não está tudo bem, e parece que nunca estará,
porque eu me sinto sozinha e não sei mais como mudar essa sensação.
Silêncio.
Renata:
É…bem…então…podemos começar?
M1: E você?
Renata: Eu?
M2: Como você
está?
Renata: Eu?
M3: Sim, você!
Renata: Eu…
M4: Está tudo
bem?
Silêncio.
Renata: Eu…eu
não posso responder.
M1: Por que
não está?
Renata: Porque
o nosso foco aqui é…
M2: Por que
você está aqui?
M3: Pelos
números?
M4: Pela
dança?
Renata: Para
dar aula!
M1: Por nós?
M2: Por você?
Renata: Sim,
acho que sim…
M3: Qual a sua
motivação inicial?
Renata: Eu…
M4: Qual a sua
motivação de agora?
Renata, M1, M2, M3 e M4: Qual a nossa motivação de agora?
Renata: Pela
primeira vez alguém parece estar se importando com a resposta que vou dar. E…
eu não sei se tenho essa resposta. Como responder algo assim?
M1, M2, M3 e M4: Não sabemos, tente pelo começo.
Renata: Eu
preferia que…que alguém respondesse por mim. Qual a minha motivação agora?
M1, M2, M3, M4:
Você quer que nós tenhamos a resposta?
Renata: Sim!
Não, melhor, eu quero que a gente busque juntas essas respostas.
M1, M2, M3 e M4: Como fazer juntas se somos tão diferentes?
Renata: Somos
mesmo?
M1, M2, M3 e M4: Não somos?
Silêncio.
Renata: Não.
M1, M2, M3 e M4: Como você sabe que não somos tão diferentes entre nós, não somos
diferentes de você?
Renata: Eu sei
porque…(Renata começa falando e as vozes de
M1, 2, 3 e 4 vão se juntando à dela) Não, não está tudo bem. Estou cansada,
estou acabada, estou arrasada, estou estressada, estraçalhada, e isso não
parece fazer diferença para ninguém. Estou perdida, desesperada, deslocada e
parece que não posso falar isso para ninguém sem parecer que eu fracassei. Ou
que a culpa é minha. Ou que estou dando um chilique. Não está tudo bem, e tenho
a sensação de que faz anos que não está tudo bem. Faz anos que acordo, que
cumpro o que preciso cumprir, que agrado quem preciso agradar, apenas para
chegar ao final do dia dolorida, cansada e frustrada, pois não consigo deixar
de acreditar que eu falhei todos os dias. Não está tudo bem, mas não vou
responder sua pergunta porque não quero mentir. Não está tudo bem, e não vou responder
o que realmente penso porque não quero chorar. Não está tudo bem, e parece que
nunca estará, porque eu me sinto sozinha e não sei mais como mudar essa
sensação.
Renata: Eu não
sei mais qual foi a minha motivação inicial para estar aqui, para ser quem eu
sou, para dançar. Eu sei que ela existiu, esteve ali, mas não lembro qual foi.
Eu só consigo pensar que se eu tivesse feito outras escolhas, seguido outros
caminhos, talvez eu não vivesse sentindo tanto medo.
Renata e M1, M2, M3, M4: Mas se eu tivesse escolhido outra coisa, talvez eu não fosse
feliz.
Renata:
Espera, eu sou feliz? Será que eu sou feliz? Será que embaixo dessa olheira,
desse cansaço, desse desejo de agradar, existe também uma felicidade?
Renata e M1, M2, M3, M4: Será que foi essa a minha motivação inicial?
Renata: Eu sei
que sou muito exigente. E nem é pela minha família, isso é meu. Fui podada
muitas vezes na vida, é claro. Mas o nível de exigência que criei foi uma
resposta minha para as podas, os desprezos, as desconfianças, os olhares
condescendentes para a menina que falava que queria dançar.
Renata e M1, M2, M3, M4: Eu sempre quis dançar. Eu sempre precisei dançar. Eu preciso
agora, mais do que nunca, dançar. Colocar para fora o que está pulsando aqui
dentro, que não cabe nos números, não cabe na métrica, na batida. Que não cabe
em nenhuma música, pois nenhuma música foi inventada pra dar conta de caber
nossa dor, nossa vida, nossos sonhos…de nos caber.
Renata: Eu
preciso dançar para falar do que não cabe nas palavras. Não cabe nas palavras
que saem da minha boca, mas cabem nas palavras e ondas que saem do meu corpo.
Eu não sei qual foi a minha motivação inicial. Mas agora, eu preciso dançar
para que meu corpo desenhe todas as pedras que carrego em forma de dever. Para
que eu jogue no ar todas as frustrações que descontam em mim. Para que eu solte
todos os protocolos, formas, números e certezas que depositaram em meu corpo
sem me perguntar o que eu achava daquilo.
Renata e M1, M2, M3, M4: Mas, principalmente, eu preciso dançar porque essa sou eu.
Renata: Eu
preciso dançar porque, através da dança, eu sou nós.
Renata dança. Apenas dança.
Fim




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